"Escuta, Senhor dos rios que se unem, as coisas que se erguem irão cair, mas as que se movem nunca estagnarão."
-- Poemas devocionais dos Basavanna.
Quando o Paquistão e a Índia conquistaram a independência em 1947, dividindo o antigo Raj britânico em dois estados rivais, um predominantemente muçulmano e o outro principalmente hindu, a ferocidade da separação deslocou quase 15 milhões de pessoas e deixou mortas centenas de milhar.
Mas muito mais foi também rasgado.
Unidades do exército colonial fenderam linhas comunitárias. História comum foi dividida, conta a conta, em coleções de artefactos de museus. Outros bens públicos - locomotivas, reservas de ouro, os instrumentos musicais da banda do departamento de polícia de Lahore - foram rancorosamente parcelados. (Despontou uma luta sobre quem ficaria com o trombone.) Foram mesmo trocados doentes de hospitais psiquiátricos, através de uma fronteira recentemente criada. "Dois ou três anos após a Divisão, os governos do Paquistão e da Índia decidiram trocar loucos, do mesmo modo que haviam trocado prisioneiros civis", começa o cáustico conto Toba Tek Singh, do escritor Saadat Hasan Manto, sobre o amargo divórcio indo-paquistanês. "Não sei dizer se esta decisão fez sentido ou não. De qualquer forma, foi fixada uma data para a troca de loucos, em conferências do mais alto nível em ambos os lados da fronteira."
Foi desta forma que o poderoso Rio Indo, com 3.500 km, foi também cortado ao meio.
Resham Singh, an Indian farmer whose fields abut the Pakistan border.
Paul Salopek
Três afluentes orientais - o Satle, o Beás e o Rauí - foram atribuídos à Índia. Dois ramos ocidentais e o canal principal - o Jilum, o Chenab e o Indo - transferidos para o Paquistão. Para os agricultores muçulmanos, sikh e hindus, que haviam em tempos partilhado a plana e fértil bacia hidrográfica do rio, isto era mais uma loucura. Como é que qualquer governo poderia retalhar uma vasta e maleável entidade líquida, que se se espraiava por quase 1,3 milhões de quilómetros quadrados da Terra? Era o mesmo que tentar dividir ao meio o ar, a chuva ou Deus.
Estou a atravessar o mundo, caminhando.
Durante semanas deambulei a pé pelo verde açude do Indo, deslocando-me à velocidade de um lento gotejar por entre os campos de trigo do Paquistão. Em Lahore, virei à esquerda e atravessei a fronteira militarizada com a Índia. Num parque de estacionamento depois das cabines de imigração, esperei por Arati Kumar Rao.
Quem é Arati Kumar Rao?
A minha nova parceira de caminhada. Detentora de três mestrados: biofísica, design instrucional e gestão de negócios. Uma antiga executiva que trocou as superfícies maquinadas de uma vida global pelas florestas gotejantes, picos gelados, desertos escaldantes e pântanos salinos da sua Índia nativa. Uma talentosa fotógrafa da deplorável situação dos ameaçados rios do seu país. Uma pintora. Uma poetisa. Uma caminhante. Kumar Rao manteve um vigoroso ritmo de 6,5 km por hora debaixo do criminoso sol punjabi. Identificou todos os animais e muitas das plantas encontradas ao longo do nosso caminho. Saudou todos os pássaros selvagens - bulbuls, periquitos, francolins, drongos, corujas, garças - com "Seu querido!" Ela queria encontrar um golfinho do rio.
Os golfinhos de água doce são primos chegados do famoso mamífero marinho.
Neste caso, a nossa presa era o Platanista gangetica menor, o ameaçado golfinho-do-indo. Pesando cerca de 90 quilos, é uma criatura prateada tão volúvel e inconstante como os canais com cinco milhões de anos do próprio Indo. Os seus antepassados rastejaram dos mares primordiais, e transformaram-se num carnívoro terrestre, de quatro patas, que vagueava nas margens dos rios do Eoceno, antes de regressar novamente à água. As barragens e a poluição levaram o golfinho-do-indo até à beira da extinção. Existem menos de 2.000 na natureza. Quase todos tentam sobreviver em rios paquistaneses. Procurar espécimenes residuais em águas indianas, onde os golfinhos surgem à superfície principalmente na memória esbatida das gentes, é como procurar um unicórnio.
* * *
Kumar Rao e eu caminhámos para leste, para Amritsar.
Amritsar é o local do famoso Templo Dourado, o mais sagrado santuário dos Sikh. Está igualmente associado ao massacre de Jallianwala Bagh, provavelmente o crime mais notório na história do Raj britânico. A 13 de abril de 1919, num campo murado com as saídas bloqueadas, tropas sob o comando do General Reginald Dyer abateram centenas de cidadãos desarmados que protestavam o domínio colonial. "Os britânicos nunca pediram desculpa," disse Deepak Seth, um jovem guia turístico no local comemorativo. O avô de Seth foi morto naquele dia. "Eles ofereceram compensações às famílias," disse. "A minha nunca aceitou. Dinheiro de sangue."
Resham Singh, an Indian farmer whose fields abut the Pakistan border.
Paul Salopek
Três afluentes orientais - o Satle, o Beás e o Rauí - foram atribuídos à Índia. Dois ramos ocidentais e o canal principal - o Jilum, o Chenab e o Indo - transferidos para o Paquistão. Para os agricultores muçulmanos, sikh e hindus, que haviam em tempos partilhado a plana e fértil bacia hidrográfica do rio, isto era mais uma loucura. Como é que qualquer governo poderia retalhar uma vasta e maleável entidade líquida, que se se espraiava por quase 1,3 milhões de quilómetros quadrados da Terra? Era o mesmo que tentar dividir ao meio o ar, a chuva ou Deus.
Estou a atravessar o mundo, caminhando.
Durante semanas deambulei a pé pelo verde açude do Indo, deslocando-me à velocidade de um lento gotejar por entre os campos de trigo do Paquistão. Em Lahore, virei à esquerda e atravessei a fronteira militarizada com a Índia. Num parque de estacionamento depois das cabines de imigração, esperei por Arati Kumar Rao.
Quem é Arati Kumar Rao?
A minha nova parceira de caminhada. Detentora de três mestrados: biofísica, design instrucional e gestão de negócios. Uma antiga executiva que trocou as superfícies maquinadas de uma vida global pelas florestas gotejantes, picos gelados, desertos escaldantes e pântanos salinos da sua Índia nativa. Uma talentosa fotógrafa da deplorável situação dos ameaçados rios do seu país. Uma pintora. Uma poetisa. Uma caminhante. Kumar Rao manteve um vigoroso ritmo de 6,5 km por hora debaixo do criminoso sol punjabi. Identificou todos os animais e muitas das plantas encontradas ao longo do nosso caminho. Saudou todos os pássaros selvagens - bulbuls, periquitos, francolins, drongos, corujas, garças - com "Seu querido!" Ela queria encontrar um golfinho do rio.
Os golfinhos de água doce são primos chegados do famoso mamífero marinho.
Neste caso, a nossa presa era o Platanista gangetica menor, o ameaçado golfinho-do-indo. Pesando cerca de 90 quilos, é uma criatura prateada tão volúvel e inconstante como os canais com cinco milhões de anos do próprio Indo. Os seus antepassados rastejaram dos mares primordiais, e transformaram-se num carnívoro terrestre, de quatro patas, que vagueava nas margens dos rios do Eoceno, antes de regressar novamente à água. As barragens e a poluição levaram o golfinho-do-indo até à beira da extinção. Existem menos de 2.000 na natureza. Quase todos tentam sobreviver em rios paquistaneses. Procurar espécimenes residuais em águas indianas, onde os golfinhos surgem à superfície principalmente na memória esbatida das gentes, é como procurar um unicórnio.
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Kumar Rao e eu caminhámos para leste, para Amritsar.
Amritsar é o local do famoso Templo Dourado, o mais sagrado santuário dos Sikh. Está igualmente associado ao massacre de Jallianwala Bagh, provavelmente o crime mais notório na história do Raj britânico. A 13 de abril de 1919, num campo murado com as saídas bloqueadas, tropas sob o comando do General Reginald Dyer abateram centenas de cidadãos desarmados que protestavam o domínio colonial. "Os britânicos nunca pediram desculpa," disse Deepak Seth, um jovem guia turístico no local comemorativo. O avô de Seth foi morto naquele dia. "Eles ofereceram compensações às famílias," disse. "A minha nunca aceitou. Dinheiro de sangue."
The Golden Temple of the Sikhs, in Amritsar.
Paul Salopek
No final, todas as contas são devidas. É assim, o karma. No espaço de uma geração os britânicos fugiram a correr - e não a andar - da Ásia Meridional.
Na independência, um advogado londrino chamado Cyril Radcliffe desvelou a divisão de 1.900 quilómetros entre as novas nações do Paquistão e da Índia. Esta linha étnica era suposta separar as populações mistas do Punjab, o celeiro da região, que foi dividido ao meio. Radcliffe demorou apenas 40 dias para terminar o seu levantamento. Nunca antes havia colocado pé na Ásia Meridional. (As autoridades coloniais argumentavam que a ignorância garantia imparcialidade.) Horrorizado, quando a sua fronteira improvisada inflamou motins e assassínios em massa em ambos os países, Radcliffe recusou o pagamento de 40.000 rupias, queimou os seus papéis e deixou a Índia, para nunca mais regressar.
Desde então, os dois vizinhos travaram meia dúzia de guerras, a maioria das quais relacionada com fronteiras disputadas.
"Até há cerca de dois anos, conseguíamos falar com agricultores paquistaneses do outro lado da vedação," disse Resham Singh, um amistoso produtor indiano de trigo, cujos campos próximos de Amritsar estão agora cortados por uma faixa de 7 metros de terra-de-ninguém, fortificada por pequenas casamatas e arame farpado. "Saem soldados de ambos os lados quando os paquistaneses e eu estamos na colheita. Agora não podemos dizer nada."
* * *
Cada manhã ficava mais quente. As temperaturas atingiram, e ultrapassaram, os 38 graus. Kumar Rao e eu suámos em direção a sul.
Contornando quadrângulos intermináveis de milho clonado.
Através de dezenas de templos Sikh cumeados por cúpulas brancas, em que voluntários ofereciam refeições simples de lentilhas e arroz a todos os passantes.
No meio de ensurdecedoras armadas de tratores que expeliam música pop Sikh para o céu, através de altifalantes do tamanho de discotecas amarrados às cadeiras dos condutores. Porquê? É difícil dizer. Extraterrestres que visitassem o Punjab ficariam a olhar, espantados - com dedos enfiados nas orelhas. Era como se um culto de humanos surdos tivesse inventado máquinas poderosas, rodadas, não para plantar alimentos, mas antes para dissecar a paisagem em padrões maníacos, cumprindo um estranho e incansável ritual - bombeando rítmicas, entoadas, enérgicas canções devocionais a um qualquer deus invisível, a todo o cosmos. Mas não: eram agricultores punjabi a trabalhar.
The Golden Temple of the Sikhs, in Amritsar.
Paul Salopek
No final, todas as contas são devidas. É assim, o karma. No espaço de uma geração os britânicos fugiram a correr - e não a andar - da Ásia Meridional.
Na independência, um advogado londrino chamado Cyril Radcliffe desvelou a divisão de 1.900 quilómetros entre as novas nações do Paquistão e da Índia. Esta linha étnica era suposta separar as populações mistas do Punjab, o celeiro da região, que foi dividido ao meio. Radcliffe demorou apenas 40 dias para terminar o seu levantamento. Nunca antes havia colocado pé na Ásia Meridional. (As autoridades coloniais argumentavam que a ignorância garantia imparcialidade.) Horrorizado, quando a sua fronteira improvisada inflamou motins e assassínios em massa em ambos os países, Radcliffe recusou o pagamento de 40.000 rupias, queimou os seus papéis e deixou a Índia, para nunca mais regressar.
Desde então, os dois vizinhos travaram meia dúzia de guerras, a maioria das quais relacionada com fronteiras disputadas.
"Até há cerca de dois anos, conseguíamos falar com agricultores paquistaneses do outro lado da vedação," disse Resham Singh, um amistoso produtor indiano de trigo, cujos campos próximos de Amritsar estão agora cortados por uma faixa de 7 metros de terra-de-ninguém, fortificada por pequenas casamatas e arame farpado. "Saem soldados de ambos os lados quando os paquistaneses e eu estamos na colheita. Agora não podemos dizer nada."
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Cada manhã ficava mais quente. As temperaturas atingiram, e ultrapassaram, os 38 graus. Kumar Rao e eu suámos em direção a sul.
Contornando quadrângulos intermináveis de milho clonado.
Através de dezenas de templos Sikh cumeados por cúpulas brancas, em que voluntários ofereciam refeições simples de lentilhas e arroz a todos os passantes.
No meio de ensurdecedoras armadas de tratores que expeliam música pop Sikh para o céu, através de altifalantes do tamanho de discotecas amarrados às cadeiras dos condutores. Porquê? É difícil dizer. Extraterrestres que visitassem o Punjab ficariam a olhar, espantados - com dedos enfiados nas orelhas. Era como se um culto de humanos surdos tivesse inventado máquinas poderosas, rodadas, não para plantar alimentos, mas antes para dissecar a paisagem em padrões maníacos, cumprindo um estranho e incansável ritual - bombeando rítmicas, entoadas, enérgicas canções devocionais a um qualquer deus invisível, a todo o cosmos. Mas não: eram agricultores punjabi a trabalhar.
A shepherd nudges his animals past arid fields in the Indus River watershed, a region where water use is huge—and not sustainable.
Arati Kumar Rao
A Índia foi um guerreiro precoce e bem-sucedido na Revolução Verde.
Sementes de elevado rendimento, fertilizantes e pesticidas, tratores e bombas de poço motorizadas, todos juntos quadruplicaram o rendimento das colheitas da nação desde os anos 1960. Hoje, o bilião e meio de habitantes da Índia é autossuficiente em alimentação. Os seu agricultores exportam cereais e fruta. Porém, estes ganhos são cada vez mais qualificados por custos ambientais íngremes e preocupantes. Os químicos agrícolas poluem os aquíferos do vital Indo. A agricultura industrial consome quantidades de água impressionantes e finitas. A nível nacional, até metade dos indianos - 600 milhões de pessoas - sofre de "stress elevado a extremo relacionado com água," afirma o governo.
"É difícil não nos sentirmos esmagados," disse Kumar Rao, marchando ao longo de um fundido caminho agrícola que uivava com tratores a puxar cargas de joio de trigo do tamanho de casas. Ela havia passado anos a documentar a exploração exaustiva dos recursos aquíferos da Índia. "A nossa negação é uma espécie de cegueira coletiva."
Nomadic fishermen seine the muddy currents of the Beas River, home to the last Indus River dolphins in India.
Arati Kumar Rao
Para encontrar um golfinho do rio temos de encontrar primeiro um rio.
Um levantamento recente estima que, na Índia, restam cinco a seis golfinhos-do-indo.
* * *
O golfinho-do-indo é um caçador cego.
Após nadar durante milhões de anos nas correntes siltosas do Indo, os golfinhos perderam as suas lentes oculares. Apenas conseguem diferenciar claro do escuro. Localizam os peixes, suas presas, através de ecolocalização. São nadadores laterais, utilizando as suas barbatanas para dragar moluscos e crustáceos do leito do rio. As mães golfinho-do-indo são conhecidas por transportar crias nas suas costas.
"Aqui já não há mais bhulan!" informou-nos confiantemente um punjabi musculado, que se chamava a si próprio Major Hindustão, numa aldeia do Rio Beás, alguns quilómetros acima da Barragem Harike. Bhulan é o nome local para os golfinhos-do-indo.
O Major Hindustão trabalhou com um pequeno circo itinerante. Era um acrobata de motociclo. Com as mangas da camisa arregaçadas para mostrar os bíceps salientes, realizou alguns truques - empoleirado com uma só perna em cima da sua Royal Enfield - para Kumar Rao e para mim, enquanto estávamos numa quieta e lamacenta margem do rio. Caminhar pela Índia é assim. Encontram-se todos os tipos de personagens em lugares improváveis. Mas o Major Hindustão também era cego. Arati Kumar Rao encontrou golfinhos naquele trecho do Beás.
Ela visitou-os durante três dias enquanto eu jazia numa casa de hóspedes, com febre. Cambaleei para fora do meu leito de doente para os encontrar e falhei. E depois vi-os.
Out of Eden Walk
Era uma fêmea e a sua cria. Eles subiam e desciam nas lustrosas e castanhas correntes, quebrando a superfície com um som como um beijo suave. Depois mergulharam na água e desapareceram.
Imaginei como o Beás lhes pareceria.
Flutuando na fusão glacial do rio, os golfinhos não experienciavam de todo o rio como um transporte. Era um mundo estacionário pelo qual fluía uma lenta paisagem de pessoas e motos e fronteiras e represas. Pensei em como, no fim de contas, não se consegue parar um rio mais do que conseguimos parar a nossa pulsação com a força de vontade. E em como nada no universo está completamente parado, morto.
Um levantamento recente indica que, na Índia, restam cinco a seis golfinhos-do-indo.
