“Olá—espere! Não vá nessa direção!”
Meu colega Arati Kumar Rao e eu estamos caminhando numa estrada de canal de terra, no Punjab, na Índia. Está um calor abrasador. O sol bate nas nossas cabeças como se fosse um martelo incandescente. Deixa nossos ouvidos zumbindo. Campos verdes intermináveis de trigo exalam um bafo de vapor enevoado em torno de nós. Estamos caminhando há vários dias, por semanas, através da planície vasta e fértil do rio Indus, passando por pequenas aldeias (a Índia é um cosmo de aldeias) quando um homem mais velho pisa no caminho empoeirado. Ele nos adverte para não prosseguirmos.
Por que, tio?
“Há bandidos lá na frente.”
Bandidos?
“Rapazes desocupados”, explica o velho. “Alguns consomem drogas. Por favor, venham descansar na minha casa. Depois vocês poderão seguir pela estrada principal.”
E é verdade.
Empty vials that contained drugs mixed with heroin litter a path in the Punjab. Most drug abuse in India is rural.
Arati Kumar Rao
Aqui, no início de minha longa caminhada através do norte da Índia, eu tropecei sobre inúmeras ampolas de vidro de anti-histamínicos, tranquilizantes e outras drogas, descartadas, usadas em combinação com metanfetaminas ou heroína. Kumar Rao e eu acabamos de passar por um pastor drogado, suas pupilas muito contraídas, balbuciando de queixo caído ao longo da trilha do canal.
Na Índia, cerca de 70 por cento dos viciados estão nos ambientes rurais. Habitantes das cidades geralmente romanceiam a respeito da vida agrária. Mas os dias nas fazendas do Punjab não são fáceis. O trabalho é pesado e repetitivo. O tempo passa parecendo não trazer qualquer mudança. As horas podem ser monótonas como o branco do céu lá em cima. Há muitas pressões econômicas. Se você for jovem, se for ambicioso, a tentação que conduz para as drogas — para entorpecer a sua decepção, para fugir do seu tédio, para se esconder dentro de você mesmo quando não está em movimento — é poderosa. Ou, em vez disso, você pode escolher fugir. O exílio pode ser uma outra forma de narcótico. Nós encontramos muitos desses jovens, adolescentes, moças e rapazes em fuga, de olhos arregalados, enquanto caminhavam nas estradas rurais do Punjab.
“Senhor, posso praticar o meu inglês?”, eles me pedem. “Eu estou estudando corredores.”
Corredores? Que quer dizer isso? Talvez estejam estudando para ser balconistas. Para arrumar os corredores dos supermercados?
Não, educadamente eles me corrigem: “I-E-L-T-S”, Sistema Internacional de Teste da Língua Inglesa.
Um exame padronizado. Ele testa a proficiência para os requerentes de visto, para emigração. Na média, seis ou sete desses jovens saudáveis, na maioria bem vestidos, alguns em carros ou andando de bicicleta e motos, nos abordam todos os dias. Em alguns dias mais de 20 se aproximam para praticar o seu inglês. Eles citam os destinos esperados, como em oração: Nova Zelândia, Austrália, o Reino Unido, os Emirados Árabes Unidos ou, raramente, África do Sul. O Canadá é mais frequentemente mencionado. A América enfurecida de Trump — nunca. É como se o Punjab, o fabuloso celeiro da Índia e um de seus estados mais ricos, cujo povo é famoso como batalhador, empreendedor e muito trabalhador, estivesse experimentando uma fuga maciça de seus mais jovens e brilhantes.
“Não existe futuro em ser fazendeiro aqui”, comenta Harpreet Singh, um plantador de batatas, de meia idade, de uma aldeia chamada Dhindsa. “Não há subsídios bastantes para termos uma vida decente. Não há seguro contra prejuízos. Geralmente você vai perdendo de ano em ano. Eu perdi os meus investimentos por dois anos seguidos. Na melhor, você consegue empatar.
Singh não estava sofrendo: suas terras são grandes, ele dirige um bom carro e usa óculos escuros bem caros. Ele tem uma filha com 12 anos e um menino com sete. Mesmo assim, ele planeja mandar os dois para estudar no Canadá.
É assim a estranha divisão do movimento humano no Punjab: os pobres e os desempregados podem optar por irem mais devagar, desacelerar no consumo de drogas estáticas; os mais saudáveis podem acelerar para fugir da órbita. Isso está acontecendo há muitos anos, por gerações. Atualmente ninguém sabe quantos habitantes do Punjab vivem ao redor do mundo. Entretanto, as estimativas estão em torno de 8 a 10 milhões. Isso é um terço da atual população do Punjab.
“A migração para países estrangeiros se tornou uma questão de identidade para os habitantes do Punjab. Se tornou um símbolo de status”, declarou recentemente Aswini Kumar Nanda, um especialista em migração do Centro para Pesquisas no Desenvolvimento Rural e Industrial, no Punjab, ao jornal Indian Express. “O Punjab é o único estado no norte da Índia com um paradoxo. O desenvolvimento leva para a emigração. Quanto maior as propriedades de terras, maior a emigração dentre essas famílias.”
O centro de Kumar Nanda fez recentemente pesquisa em 166 aldeias do Punjab. Apenas uma enviou emigrantes para o exterior.
A street vendor pumps water from a well in Faridkot, a small town with nearly a hundred English language schools.
Paul Salopek
Arati Kumar Rao e eu corremos para a cidade mercantil de Faridkot.
Chegamos aos seus arredores atrás de uma carreta puxada a cavalo, lotada de velhos homens Sikh, vestidos de mantos amarelos que seguram lanças cerimoniais. Eles debocham de nós que caminhamos sob um calor terrível. Faridcot tem um hotel três estrelas decrépito denominado o Trump Plaza e 96 escolas particulares que ensinam inglês.
“Se eles pudessem pagar, provavelmente 100 por cento de nossas crianças iriam embora”, diz Gulabi Singh, o diretor de uma das escolas, que prepara os candidatos a emigrantes para os seus exames de inglês. “Mesmo dirigir um taxi em Vancouver é melhor do que permanecer aqui.”
Dentro das impecáveis salas de aula de Gulabi, os alunos mais sinceros descreves os seus próprios futuros: artistas, médicos, identidades difíceis de serem adquiridas para as crianças que vivem em Punjab. Eles lutam com uma sentença no quadro branco: “Algumas pessoas pensam que matar animais para comer é cruel, mas outras afirmam que aqueles animais são uma parte necessária para a dieta.” Isso é para prepará-los para a vida além de seu vegetarianismo hindu e sikh.
Há quanto tempo estamos fazendo isso? Eu me pergunto.
Mas a resposta é clara: bem desde o início.
Eternamente.
Sob as ruas sufocantes pavimentadas, bem por baixo de seu falso Trump Plaza motel, velhos sedimentos de rio transportam os remanescentes das civilizações de Harappan ou do Vale do Indus. Cinco mil anos de idade. Talvez até mais velho. Uma das primeiras culturas urbanas da história. Os artefatos Harappan do Punjab têm sido encontrados tão longe quanto a Arábia, o Iran, a Ásia Central. Os Harappans foram grandes viajantes. De forma estranha, os arqueólogos nunca encontraram qualquer evidência de um comércio de retorno. Os proto-punjabis que se espalharam pelos ventos aparentemente nunca olharam para trás. Não há consenso entre os especialistas para explicar isso.
