“Você está tentando cruzar o Chambal? De jeito nenhum.”
“Tenha muito, muito cuidado.”
“Não tem como, não a pé.”
“Não vá lá.”
São os meu amigos indianos da grande cidade. Eles cresceram com as notícias e filmes de Bollywood sobre o remoto Chambal, um vasto ermo ao norte do país: uma zona proibida de montes grumosos e rios lodosos infestados com bandidos, ladrões, assassinos, gângsters —com infames salteadores chamados Dacoits. Mas eu ando pelo Chambal. A população local é amigável. Eu conheço meu primeiro dacoit na cidade de Gwalior.
"I was a rebel. I fought injustice," says former dacoit Malkhan Singh, 76, who lives in Gwalior. He sleeps with a rifle "for my protection."
Paul Salopek
“Eu não sou um dacoit,” murmura Malkhan Singh. “Eu era um rebelde. Eu combati injustiça. Além disso, foi a muito tempo atrás.”
Singh é um homem robusto para 76 anos. Ele senta descalço em uma ornada cadeira de madeira, seu cabelo afinando e uma tikka estranhamente grande, uma marca vermelha de um hindu devoto, pintada sobre suas sombrancelhas. Ele é cauteloso e grosseiro. Se rendeu à polícia a muito tempo atrás, em 1983, com registros de seus colegas criminosos em troca de uma anistia geral. Ele serviu um curto período na prisão. E depois foi autorizado a voltar para uma vida pacata de fazendeiro. A polícia ainda mantém um pé atrás com ele. Mas ele agora é aposentado, em uma pequena casa de esquina em um bairro pobre de Gwalior, e é desconfiado de repórteres. A imprensa sempre vem aqui com as mesmas perguntas. Você matou, assaltou, roubou? (“O que fizemos foi honesto, nossas razões eram honestas.”) Você andava a cavalo? (Não, Dacoits espreitam a pé por arbustos.) Você se preocupa com ataques vingativos das famílias das vítimas?
“Medo é um estado mental,” Singh diz com desdém. “Eu não tenho motivos para temer inimigos. Eu não tenho medo.”
Então por que tem um rifle de fácil acesso em sua cabana? Singh sorri pela primeira vez. “O que você acha que sou?” ele diz. “Um caçador?”
Espalhado nas fronteiras de três estados no norte indiano—Rajastão, Madhya Pradesh, e Uttar Pradesh—o Chambal é um meio do nada coberto por arbustos e riscado por inúmeras ravinas íngremes e erodidas chamadas beehad, um labirinto de refúgios que antes foram esconderijos perfeitos para centenas, se não milhares de bandidos rurais que aterrorizaram a região por anos.
The ornate doorway of an old mansion in Sirmathura, Madhya Pradesh. Inequalities under India's feudal land system may have sparked dacoit crimes, but the violence soon became far more complicated.
Paul Salopek
A indústria de filme indiana tem romantizado as façanhas dos dacoits da região da mesma forma que Hollywood idolatra os pistoleiros do velho oeste.
Mas na realidade, o crime organizado do Chambal tem em grande parte desaparecido. Os bandidos agora estão em sua maioria mortos ou velhos. No início dos anos 2000, grandes operações policiais, o uso de helicópteros, e a construção inexorável de estradas deixou os fora-da-lei sem opções para fugir.
Dilip Singh Parmar, o vice-prefeito de uma pequena cidade isolada chamada Sirmathura, se lembra dos tempos recentes da fronteira.
Parmar relembra como a rede de postos policiais exibia pôsteres de “procurados” oferencendo fortes recompensas pelos ladrões mais famosos. Alguns Dacoits acumulavam pontos por acusações de assassinatos. Eles eram os Reis bandidos das ravinas e das colinas. Eles roubavam negócios, é verdade, mas se você for pobre, eles também pagavam sua conta médica ou financiavam seu casamento. A tática predileta deles: sequestrar pessoas ricas e mutilar seus dedos, narizes, ou orelhas para convencer parentes ricos a obedecer suas demandas em troca do resgate.
A raiz de toda a violência estava profundamente alojada na tríplice de desigualdade da Índia: subdesenvolvimento, feudalismo, e castas, diz Parmar.
“Antes da independência nós tínhamos zamindars (proprietários de terras) que coletavam os impostos, e pagar aqueles impostos era muito complicado,” ele diz, observando que muitos desses proprietários eram de uma classe guerreira de aristocratas chamados Rajputs. “Se você era um Rajput, você vivia em uma casa grande, andava em um cavalo, e ninguém das classes baixas poderia usar seu poço, ou sentar debaixo de suas árvores,” ele diz. “A única maneira que os oprimidos tinham de lutar por sua dignidade era com uma arma.”
Talvez a mais famosa desses bandidos foi Phoolan Devi, uma aldeã que, depois de um sofrer um estupro coletivo por lordes Rajput, tornou-se a “bandida rainha” e saiu para vingar-se, supostamente, massacrando 22 Rajputs em uma única batalha. Filmes foram feitos sobre a vida de Devi. E ela tornou-se membra do parlamento indiano antes de ser assassinada em uma vendeta.
Mas as versões heroicas dos dacoits, uma classe de revolucionários, feitas por Bollywood esconde uma realidade mais complexa. Até Rajputs locais tornaram-se fora da lei. E a dura cultura de honra do povo do Chambal—um violento código de respeito masculino com semelhantes em outras duras ordens de governância, da Appalachia ao Cáucaso — também tivera sua influência.
Balwant Tomar, a former dacoit leader in the rugged Chambal region, surrendered to police with 106 other robbers.
Paul Salopek
“Nós temos grandes famílias e pequenas posses de terras que não podem ser divididas,” diz Balwant Tomar, 66, que teve quase 150 acusações criminais contra ele e que admite ter matado a tiros nove homens em sua carreira como dacoit. “muitas famílias iriam lutar entre si. E se você não consegue justiça do governo, então o que você faz? Você morre de fome ou vira um dacoit.”
Ashok Bjadoriya, um “especialista de conflitos,” ou agente da polícia de operações especiais, sediada em Gwalior, ajudou a polícia indiana a matar mais de 116 dacoits e colocar mais de 1.000 na prisão, ao longo de seus mais de 30 anos de carreira.
“Tem algo na água do Chambal que torna as pessoas bruscas e agressivas,” Bhadoriya diz. Alto, quieto, corpo quadrado, ele movimenta-se com os passos cautelosos de alguém que andou quilômetros em colinas e sobreviveu um tiro em uma emboscada. “Um dacoit colocou uma recompensa de 50 lakh de rúpias na minha cabeça” ele diz — por volta de $70.000.
Bhadoriya acredita que a natureza do crime mudou no Chambal hoje em dia pois as pessoas mudaram. Poucos jovens locais podem resistir a chuva, a lama, os escorpiões, e a caminhada de uma vida rural fora da lei em fuga, ele diz. Os novos dacoits são urbanos. Eles tornaram-se fracos. Predam mulheres e não adotam nenhum princípio de Robin Hood. Ao contrário dos antigos bandidos, que tinham seus códigos. É uma velha história.
O próprio Bhadoriya agora é aposentado e entrou para a política. Ele disputou um assento na legislatura com um oponente que antes o ajudou a prender Malkhan Singh, o ex-dacoit que dorme com um rifle.
