O budismo nasceu sob uma figueira gigante, que atualmente cresce no centro da cidade de Boda Gaya, remota e esquecida, em um distrito pobre do nordeste da Índia, no estado de Bihar. A árvore está a três quadras tortas do Café Be Happy e a poucos minutos de caminhada de uma loja de livros usados onde um devotado Krishna de meia idade, vindo de Iowa, chamado James, trabalha, revendendo as brochuras de Hesse e Murakami.
A sagrada Árvore Bodhi é circundada por um muro e protegida pela polícia. (Extremistas islâmicos bombardearam o local em 2013.) Na alvorada, antes que os peregrinos iniciem a sua caminhada circular em torno do tronco maciço da árvore, as crianças locais procuram alimento sob a sua copa ampla — alguns galhos são sustentados por colunas de ferro — para recolher as folhas caídas. Espremidas dentro de sacos plásticos transparentes, as folhas são vendidas aos visitantes de Butão, Mianmar e Manhattan, e para os postos avançados do budismo ao redor do mundo. O Buda histórico, Siddhartha Gautama, um príncipe de renome original de onde agora é o Nepal, diz-se ter alcançado o nirvana enquanto meditava sob a árvore, no quinto século A. C. O Desperto supostamente passou sete semanas sob a Árvore Bodhi depois de conquistar a liberdade da roda de sofrimentos que prende a humanidade ao individualismo, envelhecimento, doença e morte. Assim me contou Deepak Anand.
No inverno passado, eu encontrei Anand não no Be Happy Café mas em um de seus concorrentes, o Tibet Om Café. O menu oferecia alimentos básicos e simples para os peregrinos espirituais ocidentais na Ásia: panquecas de bananas. Anand, que tinha 45 anos, não comeu. Ele era alto, magro como um palito, tinha a cabeça raspada, e era tão intensamente tagarela que pedia uma xícara de chá mas esquecia de tomá-lo. Anand é um geógrafo autodidata. Pelos doze últimos anos ele analisou os textos históricos e utilizou a tecnologia G.P.S. para mapear o que ele diz terem sido as rotas caminhadas pelo Buda enquanto ele espalhava a sua filosofia de atenção plena através do norte da Índia, cerca de dois mil e quatrocentos anos atrás. Anand espera promover o seu legado espiritual recapitulando uma rede de “trilhas de Buda”, o berço da quarta maior religião do mundo. Embora o budismo tenha desaparecido em grande parte dessa região há muitos séculos, eclipsada pelo hinduísmo e islamismo. Atualmente, os fazendeiros arando desenterram efígies de pedra sem imaginar que as esculturas são antigas representações da saga. “Há muito tempo as pessoas derrubaram as stupas e construíram suas casas usando os velhos tijolos e pedras”, disse Anand, referindo-se aos monumentos budistas que outrora pontilhavam as planícies do rio Ganges. “Eles simplesmente não sabiam.”
Para testar suas ideias, Anand sugeriu que nós caminhássemos desde a Árvore do Iluminismo, em Bodh Gaya, até as ruínas da universidade de Nalanda — um importante centro do aprendizado budista, que foi arrasado pelos invasores turcos no século doze. A caminhada de 4 dias realmente “abrange” a ascensão e queda do budismo no subcontinente: muitos estudiosos acreditam que a destruição da universidade contribuiu para o declínio da região. Ninguém, nos tempos recentes, me assegurou Anand, traçou novamente as pegadas de Buda através da rota de cerca de oitenta quilômetros.
A única concessão de Buda aos apetrechos da caminhada era uma tigela de pedinte. Por vezes ele caminhava através das aldeias de Bihar acompanhado por uma grande multidão de seguidores. O nosso próprio grupo de caminhantes consistia de quatro: a jornalista baseada em Bangalore, Bhavita Bhatia que carregava uma bandeira do Tibete Livre em sua mochila; Siddharth Agarwal, de Calcutá, um conservacionista do rio, carregando uma cópia de capa dura do “Ganges: os muitos passados de um rio da Índia”; eu carregava os dispositivos eletrônicos necessários para transmitir as estórias desde o caminho. Apenan Anand praticava o desapego budista. Tudo o que ele portava era um leve suéter. “Perdão, perdão, perdão”, ele dizia quando nós o alcançávamos no caminho, depois que ele repetidamente tomou a dianteira. “Eu sou uma pessoa com muita energia”.
Nos tempos de Buda, a paisagem religiosa do norte da Índia se encontrava em um clima de crise espiritual e convulsão social. Desiludido, sem rumo, Siddhartha renunciou sua vida dourada — uma infância com trinta e duas babás, um reino com palácios sazonais e jardins privativos e sua esposa princesa e seus filhos — para se juntar a outros ascetas meditando nas florestas e no rio Neranjara.
Atualmente, lixo plástico se acumula nas margens arenosas do rio. Quilômetros de campos de arroz emitem vapor onde outrora árvores gigantes lançavam sombras azuladas. “Relatos britânicos mencionaram a presença de um leopardo na estação ferroviária no final dos anos mil novecentos e trinta”, melancolicamente disse Anand. “Tudo já se foi”.
Um grupo de monges da Malásia parou para nos pedir orientação. Eles acabaram discutindo com Anand a respeito da localização da Rocha Ratnagiri, o local por vezes identificado onde Siddhartha finalmente abandonou a sua vida de eremita, quebrou o seu jejum com uma tigela de mingau e inventou um “caminho do meio” para a transcendência que rejeita ambas, a extrema sensualidade e a extrema austeridade. Anand informou aos monges que ele marcou as coordenadas exatas da epifania de Siddhartha. Os monges sorriram em um silêncio educado. “Há muitas seitas no budismo”, disse Anand. “É impossível convencer a todas elas”. Nos afastamos caminhando. Passamos pela caverna na montanha onde se diz que Siddhartha se mortificou por seis anos. E, depois que essa peregrinação terminou, Bihar se tornou em apenas Bihar.
Cronicamente indicado como um dos estados mais pobres da Índia Bihar não é habitualmente associado com renascimento espiritual. Em lugar disso, as notícias a seu respeito tratam de secas, inundações, surtos de encefalite fatal e tremores secundários de uma insurgência maoísta fracassada.
Seguindo Anand nós caminhamos penosamente por minas de areia abandonadas. Caminhamos sobre trilhos de trem. Passamos por aldeias inertes, esvaziadas pela migração urbana. Em celeiros, famílias acionavam com manivelas grandes ventiladores mecânicos para gerar uma brisa para debulhar suas colheitas. No entanto os Biharis são ritualmente gentis. Eles oferecem um copo de água do poço, um lugar na sombra, uma noz de betel narcótica para mastigar durante o caminho. Um dia de caminhada até a bolha de turismo de Bodh Gaya, onde lamas difundem tipos de meditação no YouTube, o mundo se torna tão insular que os jovens meninos, me olhando, exclamavam: “Olhem para esse rosto! Vocês já viram um rosto assim?”
“O que o nosso povo e governo não imaginam”, Anand nos disse, frustrado, “é que eles estão vivendo no topo de um tesouro global — dentro de um museu vivo.”
Anand não é budista. Ele foi hindu por nascimento e um empirista por natureza. Acima de tudo, ele é um Bihari orgulhoso.
O filho de um pai militar e uma mãe dona de casa de classe média, Anand estudou engenharia e esperava se tornar um piloto de caça. Mas a sua curiosidade continuou a arrastá-lo para as montanhas de Nalanda. Os morros cobertos de grama são escombros do poderoso império Magadha, cujos reis fundaram o primeiro mosteiro budista do mundo, há mais de dois milênios. Anand começou a examinar através dos relatos dos primeiros viajantes do passado amplamente esquecido de sua terra natal. Seu herói é Xuanzang, um monge aventureiro chinês que viajou para a Índia, no século sete, para estudar as raízes do budismo. Trabalhando como intérprete dos peregrinos e consultor cultural, Anand se tornou um especialista improvável em budismo. Uma inserção no seu blog anunciando a descoberta da Rocha Ratnagiri e citando o monge chinês do século quinto, chamado Faxian, num parágrafo como este:
Anand compilou centenas desses pontos de passagem em sua base de dados da trilha de Buda. Ele é um admirador ferrenho de seus predecessores, os arqueólogos britânicos do século dezenove cujas escavações provaram que o budismo foi uma ideia da Ásia do Sul. (Estudiosos anteriores afirmavam, com base nas estátuas com cabelos crespos, que Buda era etíope.) “Os ingleses eram colonizadores”, disses Anand, “mas eles deram Buda para a Índia”.
“E eles levaram tudo que encontraram para Londres”, nosso Agarwal, disse o conservacionista do rio.
Quando entramos caminhando em uma aldeia denominada Lohjara, parecia que de todas as casas acenavam para Anand. Ele foi saudado por ter pressionado a polícia local para investigar o roubo do Buda de pedra da cidade. A estátua desgastada, contemplando a eternidade na posição de lotus, lá permaneceu sentada em um parque local por gerações. Em 2014, ladrões de arte carregaram a pesada escultura na mala do carro e sumiram noite adentro. Dois anos depois, agindo a partir de uma pista, policiais invadiram um armazém nas imediações e encontraram o Buda embalado para exportação. “Nós nos sentimos muito mal durante esses dois anos”, lembrou Rattan Pandey, um ancião da aldeia. “Nós protestamos junto às autoridades para recuperá-la imediatamente. Nós até mesmo bloqueamos as estradas.”
O Buda restaurado se achava fixado com aros de aço sob a árvore da cidade. A face da estátua foi mutilada há muitos séculos, possivelmente por um soldado turco. Pandey adorava a estátua como “Shiva sem Nariz”, uma versão mutilada da deusa hindu.
Nós escalammos o vale Jethian colhendo bagas azedas de árvores jujuba. De acordo com o monge explorador Xuanzan, um homem do local tentou medir a altura do Buda quando ele visitou o local. Medir a imensa alma por meio de qualquer medida terrestre se provou ser impossível. Frustrado, o cético jogou para baixo o seu bastão de bambu — que brotou verde para a vida. Canaviais ainda cobrem as altas ravinas de Jethian. Ainda havia cartazes desbotados anunciando o primeiro esforço de Anand para ressuscitar os lugares sagrados de Bihar — uma caminhada de peregrinos organizada por uma instituição de caridade da Califórnia.
Uma estrada remota da montanha, patrulhada por macacos rhesus nos guiou para Rajgir a antiga capital do império Magadha. A área era um desconcertante diagrama de Venn da singular história espiritual da Índia: cavernas Jain, templos hindus, santuários muçulmanos, stupas Ashokan. Anand também era muito conhecido aqui. No Pico do Abutre, um santuário onde Buda ensinou seu Sutra do Coração — “Forma é apenas vazio, vazio apenas forma” — uma multidão de aliciados, estivadores, condutores de riquixás e vendedores de bebidas ficaram em volta de Anand. Eles reclamavam por estarem sendo intimidados por uma máfia de peregrinação. Ele os aconselhou que formassem um sindicato.
No quarto dia, nós caminhamos para Nalanda sob nuvens da cor de chumbo polido. Anand nos mostrou as redondezas. Nesse pico, Nalanda, na Bihar central, foi o maior centro de aprendizado budista no mundo. Abrigava até dez mil monges estudantes. Eles discutiam sobre a doutrina budista e estudavam cosmologia, astronomia e arte. Dezenas de aldeias nas imediações se dedicavam a alimentar os residentes estudiosos. Os graduados de Nalanda ajudaram a levar o budismo para o Tibete e locais ao longo da Rota da Seda. “Eles usavam grandes espelhos para refletir a luz sobre as estátuas de Buda dentro dos templos”, disse Anand, destacando as maravilhas arquitetônicas do centro monástico.
Mas as ruinas bem cuidadas pareciam em coma. Bhatia, a jornalista, desenrolou a sua flâmula tibetana colorida — o único toque de cor nas áridas praças de Nalanda.
Como o budismo se afastou de sua origem indiana, entre seis e sete séculos atrás, permanece como um dos grandes mistérios na história da religião. Os nacionalistas hindus atualmente no poder em Nova Déli assumem uma posição oficial: eles insistem que as hordas muçulmanas da Ásia Central — primeiro os invasores turcos e depois os mongóis — aniquilaram os pacíficos budistas à ponta de espada. O general que arrasou Nalanda, Bakhtiyar Khalji, nem mesmo conseguia ler os milhões de manuscritos budistas que ele incinerava. Mas outros estudiosos, adicionou Anand, acreditam que a realidade é mais complexa. Por séculos, a influência budista estava se apagando na índia. Os mosteiros produziram uma fuga de cérebros, enfraquecendo a inovação. Os monges ficaram isolados do povo. O hinduísmo e o islamismo atraíram mais seguidores. Foi como se o budismo desaparecesse da mesma forma como os seus professores. Supostamente o Buda faleceu, com oitenta anos, próximo de onde hoje se encontra Kushinagar, in Uttar Pradesh. Suas cinzas foram removidas da cena de sua vida e espalhadas através do mundo budista.
De acordo com alguns escritos, o Buda passou uma semana “caminhando um longo percurso para cima e para baixo em alegria e felicidade” após alcançar a iluminação. Nosso pequeno grupo de caminhantes se dispersou no ponto de ônibus de Nalanda. Bhatia partiu para Sikkim. Anand retornou para sua base, em Bodh Gaya. Apenas Agarwal e eu seguimos em frente — rumo ao rio Bramaputra. Uma neblina superficial densa envolveu os campos, tornando difícil a navegação. Nós ficamos tropeçando ao longo das trilhas encharcadas do canal. Corvos apareceram e desapareceram no branco. Antes da nossa separação, Anand pediu aconselhamento sobre um caminho seguro. Eu havia me esquecido de dizer-lhe que, numa longa caminhada, ele iria se perder. E que estar um pouco perdido não é mau. Isso ajuda você permanecer alerta. E ser encontrado é surpreendente.
Este artigo foi produzido em parceria com o New Yorker. Leia mais sobre a parceria aqui.
