Nos finais do século XV, uma série de secas brutais afligiram a Índia ocidental. A chuva tornou-se uma memória. Colheitas murcharam. Os furos de água franziam, secos. Aldeões esfaimados caçaram animais selvagens até à beira da extinção. E as poucas árvores da região foram abatidas e vendidas como madeira em cidades distantes. Desta paisagem esquelética saiu um homem santo chamado Guru Jambheshwar. Durante mais de meio século, Jambheshwar deambulou, pregando uma nova espécie de fé hindu: o bishnoísmo.
Nascido da calamidade ecológica, os seus 29 princípios convidavam os seus seguidores a "mostrar compaixão por todas as coisas vivas" e proibía o "corte de árvores verdes". Os crentes bishnoi escavavam poças apenas para serem usadas por pássaros e gazelas. As mulheres bishnoi grávidas amamentavam antílopes órfãos. As árvores eram protegidas. Desta forma, uma religião importante regressou ao caminho do animismo. Os bishnoi tornaram-se os druidas do hinduísmo - a sua brigada ambientalista.
"Nós salvamos a natureza, e a natureza salva-nos a nós," afirmou Nishant Bishnoi, 27 anos, um dos talvez meio milhão de membros da seita na Índia. "Esse é o nosso ensinamento."
Conheci Bishnoi depois de caminhar quase 320 quilómetros através de uma das paisagens menos naturais da Índia, o núcleo cultivado à máquina do Punjab.
Sudhir Kukna, left, and 103-year-old Sri Ram Punia reminisce about less crowded times in the Abohar region.
Paul Salopek
O cesto de cereais do noroeste da Índia é tão sintético como qualquer cena rural no Iowa. Nivelado por ceifeiras-debulhadoras guiadas a laser. Irrigado através de um vasto circuito de poços, aquedutos e canais. Encharcado de fertilizantes químicos e pesticidas. Entre a grelha dos sulcos de tratores, bishnois de 13 aldeias juntaram-se para formar o Santuário da Vida Selvagem de Abohar. Os 189 quilómetros quadrados de mato e campos de trigo protegeram a maior população restante no país de Antilope cervicapra, antílopes-negros, uma espécie quase ameaçada de antílopes com longos chifres enroscados. Cerca de 3.300 dos elegantes animais, sagrados para os bishnoi, deambulavam pelos trilhos agrícolas, ou refastelavam-se à sombra de árvores de fruto. O mesmo faziam manadas imperturbadas de nilgós azuis, o maior antílope da Ásia, com os seus 140 quilogramas.
A tame blackbuck at a nature preserve in Rajasthan.
Paul Salopek
As cenas de amizade humanos-animais pareciam paradisíacas. Mas a reserva, criada nos anos 1970, estava-se a erodir, sob pressões comuns em toda a Índia agrária.
"Pessoas de todos os lados estão a abandonar aqui as suas vacas," queixou-se Mahinder Kumar Manju, 40, um agricultor bishnoi. "Chegam à noite em camiões e descarregam os seus animais velhos. Sabem que os vamos tratar bem."
O abandono de vacas é um problema particularmente indiano.
As vacas domésticas são sagradas para os hindus. Ao atingir o fim da sua vida útil de produção de leite, os bovinos da Índia, estimados em 300 milhões, são supostos serem cuidados - alimentados e abrigados em estábulos até às suas mortes naturais. Mas esta onerosa tarefa é frequentemente evitada por donos que simplesmente abandonam o seu gado idoso, preferencialmente longe. Agricultores afirmam que a população de vacas abandonadas aumentou à medida que o movimento nacionalista hindu fomentou uma campanha de proteção de gado e reprimiu, por vezes violentamente, o comércio de vacas para exportação ou para consumo doméstico pelas minorias não hindus. Existem conflitos relacionados com abandono de vacas em toda a Índia.
A reserva bishnoi, encarada como uma pastagem amiga dos animais, é um íman para essas disputas.
As vacas abandonadas competem com os antílopes locais pela erva. Agricultores bishnoi começaram a cercar as suas colheitas de trigo para as protegerem de manadas soltas de animais domésticos abandonados. As novas vedações de arame farpado prendem e, por vezes, mutilam os antílopes-negros. E uma população crescente de cães selvagens, saciados pelas carcaças de vacas, caça os jovens antílopes.
"Aqui costumava haver terra desobstruída em todo o lado," afirmou Sudhir Kukna, 32, um proprietário rural bishnoi na reserva de Abohar. "Agora parece-se com o resto do Punjab."
Nishant Bishnoi shows a photo of a blackbuck wounded by new razor wire fences. “This used to be an open area for wild animals," he says. "No more.”
Paul Salopek
A comunidade bishnoi da Índia cimentou notoriamente o seu darma verde há quase três séculos atrás. Em 1730, os membros da seita, liderados por uma mulher chamada Amrita Devi, interpuseram-se entre um bosque de árvores khejri sagradas e um exército de lenhadores enviado para colher madeira para o rei de Jodhpur. Recusando mover-se, os bishnoi morreram literalmente agarrados às árvores. Os soldados cortaram através dos seus corpos. Mais tarde, o rei, cheio de remorsos, baniu toda a exploração madeireira.
No início deste ano, os bishnoi defrontaram novamente realeza indiana: Bollywood.
Em abril, Salman Khan, a maior estrela de bilheteiras masculina da Índia, foi finalmente condenado, depois de 20 anos de recursos, por caçar furtivamente antílopes-negros ameaçados em terras bishnoi. Alertados por disparos, agricultores bishnoi perseguiram em motorizadas a megaestrela que fugia. Desta vez, porém, o rei não se arrependeu. Khan passou uma noite na prisão antes de ser novamente libertado pelos seus advogados.
"Continuaremos a lutar contra ele nos tribunais," afirmou Nishant Bishnoi, o jovem agricultor na reserva de Abohar, em dificuldades. No seu telefone móvel, mostrou fotos de antílopes-negros mortos por correrem contra vedações de arame farpado. "Tem a ver com a mensagem. É pelo ambiente."
Acampei a alguns quilómetros da casa de Nishant Bishnoi, em arbustos semidesérticos que estavam a ser minerados por areia. Contava-se entre os últimos troços restantes de habitat de antílopes nativos no Santuário de Vida Selvagem de Abohar. Era um recanto de espinhos brancos e dunas ocre que podia ser atravessado a pé em três minutos. Cobria menos de um acre.